CRÓNICA
Bom, agora já sabemos onde isto tudo foi parar. Milhares de desempregados, dois milhões de pobres, manifestações monstras de punho erguido desafiando quem tinha a obrigação de nos proteger e não quer ou não consegue. E a revolta(...)
TODOS TEMOS UM SONHO …

Também eu tive um sonho, há 35 anos atrás… Sonhei com um país livre, democrático, igualitário, solidário, sem pobreza, sem desemprego, sem fome, com habitação digna e ensino para todos. Quando em Novembro de 1975 a direita deu o golpe militar que pôs fim à influência da esquerda militar dita radical, senti sorrateira comichão no nariz. A coisa já não me cheirava muito bem. O “Verão Quente” foi-se diluindo, diluindo, os políticos à pressa e mal amanhados viram a oportunidade e, como caracol em dia chuvoso, começaram a pôr as antenas de fora, a apalpar, a apalpar, assobiando para o lado para não se dar logo por eles, a rapaziada do carcanhol que tinha dado de celáides e estava a banhos de leite e mel ou em Espanha ou no Brasil, já arriscava um tímido sorriso, a coisa compunha-se, era só ter mais um pouco de paciência, qualidade que, bem o sabemos, todo o bom capitalista se preza de possuir desde pequenino.

E o raio do meu sonho a ficar pendurado, como anel no prego do prestamista. Mas eu, casmurro como o meu avô carroceiro, ou melhor dito como a mula que o transportava de vez em quando encavalitado na lombeira, não deixava de refazer o sonho com esperanças ocasionais que o dia a dia encalhava nas páginas dos jornais nacionais, lidos ávida e minuciosamente. Os anos foram passando e nós a vê-los de regresso, o capital e a rapaziada da pide que passou, coitada, a vida em postos fronteiriços e até tinha o higiénico desconhecimento do que se passou em Peniche, em Caxias e na sede da pide lisboeta; torturas, prisões ilegais e mortes não tinham lugar nas suas memórias, a regressar ao seu lugar ao sol, que a nossa costa atlântica é comprida e as nossas costas largas. Refizeram-se fortunas, as cooperativas, depois de democraticamente espremidas voltaram para os sacrificados agrários, as fábricas para os anteriores donos, os sinos voltaram a tocar as matinas e os padres respiraram mais aliviados no interior das suas batinas. O comunismo começava a caminhar ao pé-coxinho, abre núncio, te arrenego! Na ponte, valha-nos isso, o novo nome – 25 Abril - continuava sem mudança…
Mas o sonho persistia, tijolo a tijolo. Ainda acreditava no tal país que coloria a minha íntima esperança, mas agora mais comedidamente, quando no passado era à lagardère. Os ventos não estavam de feição, navegava-se à vista, os políticos e seus serventuários eram mais escolhos do que velas e a realidade amarga instalava-se neste nosso rectângulo, como se fosse faca cortando pensamentos revolucionários que um dia acordaram e pensaram subsistir para sempre. Era um sonho generoso mas ingénuo, pelos vistos…
Bom, agora já sabemos onde isto tudo foi parar. Milhares de desempregados, dois milhões de pobres, manifestações monstras de punho erguido desafiando quem tinha a obrigação de nos proteger e não quer ou não consegue. E a revolta do povo a vir ao de cima, ou de cima…
Mas não tenho emenda. Continuo a sonhar. A sonhar com o tal país que o nosso povo merece! A sonhar sempre, até ao fim. Sou um incorrigível sonhador!...
FERNANDO MANUEL PEREIRA

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