CRÓNICA
O Festival da Canção Infanto-Juvenil de Palmela consegue sobreviver como projecto graças ao voluntarismo da sua responsável, dos pequenos artistas, dos colaboradores e com o apoio de duas ou três entidades oficiais não sectárias(...)
O OUTRO LADO DO ESPELHO MÁGICO

Falta muito pouco para se comemorar os 35 anos da Revolução de Abril”. No ar pressente-se já um cheirinho a cravos… E é na cauda deste Abril de todas as esperanças, cais e abrigo de sonhos e utopias, que se vai realizar na bonita vila de Palmela o Festival da Canção Infanto-Juvenil, também ele um sonho e uma utopia que a vontade, a persistência e o muito saber, permitam-me dizer, de um nosso conhecido jovem casal da Cultura, Céu Campos e Ricardo Cardoso, anualmente tornam realidade.
Somos, pela comunicação social, todos os dias informados de violações, mortes, raptos, abandonos, abusos e exploração de crianças e adolescentes, com uma sociedade que parece indiferente a estes dramas e crimes hediondos. É por isso que o Grupo de Teatro Espelho Mágico (que abre a 1ª parte do Festival) é uma pedrada no charco da nossa indiferença, apontando-nos o dedo para o mais que podemos fazer e não fazemos em prol de uma sociedade mais livre, mais justa, mais amena e mais responsável, colocando o teatro como agente de educação na formação dos jovens, de forma mais assertiva.

Porque este grupo de teatro infanto-juvenil, verdadeira oficina de jovens artistas, com sede em Setúbal mas validamente acarinhado em Palmela, consegue mobilizar e convocar a sociedade a participar, assistindo aos seus espectáculos de casa cheia, faz-nos pensar que mais do que amadores, são voluntários que acolhem, protegem e educam crianças e jovens (e um ou outro adulto mais ou menos extraviado…), tendo o universo mágico das artes como uma das suas referências, numa acção meritória que favorece o crescimento social e humano dos pequenos artistas, quer os que vão construindo o espectáculo teatral diante da plateia, quer os que, em saudável competição, surpreendem o público interpretando belas canções.

Diversão e fantasia são duas das cores com que pintam as suas estimulantes produções, eminentemente populares, uma arte voltada para o público, que já teve, felizmente, oportunidade de ser reconhecida pela crítica mais exigente e por entidade públicas e privadas mais desempoeiradas. Numa simbiose perfeita e original harmonia, o programa Arestas de Vento, Grupo de Teatro Espelho Mágico e Festival da Canção de Palmela, constroem momentos únicos, trazem-nos o universo das crianças, realidades e reflexões sobre valores morais, perante uma plateia a deixar-se levar pelo encantamento do espectáculo, do primeiro ao último segundo. Particularmente, todos os anos, sou surpreendido com o cenário, com a soberba condução dos artistas e com o fundo musical.

Dependente de incentivos, alguns financeiros, para criar espectáculos maravilhosos de valor acrescentado, o Festival da Canção Infanto-Juvenil de Palmela consegue sobreviver como projecto graças ao voluntarismo da sua responsável, dos pequenos artistas, dos colaboradores e com o apoio de duas ou três entidades oficiais não sectárias e à compreensão e solidariedade de uma ou duas instituições particulares, exemplo que certamente deveria ser seguido por certos organismos que se auto-intitulam de baluartes culturais, mas a que as palas partidárias lhes limitam a visão, não os deixando abarcar em plenitude o mundo real, o espelho mágico da boa cultura popular…
FERNANDO MANUEL PEREIRA

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