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PALAVRAS no VENTO
Assim como a maquilhagem pode, às vezes, fazer com que uma puta passe por uma mulher virtuosa, também a modéstia pode fazer um tolo parecer um homem de senso.

21/02/2009 GMT 0

CARTA AO VELHO AMIGO VICTOR SERRA

fmp @ 12:53

Pede-me o Ricardo alguns poemas meus para tu leres sem te engasgares, na próxima (boa) entrevista que o Arestas vai fazer navegar pelo éter. Não me deixes ficar mal e dar por mal empregue os tostões que contigo gastei durante anos a pagar-te o raio de centenas de bicas, (curtas e com espuma, recordas?), sempre na esperança de que te saísse a lotaria e que me compensasses. Mas como nunca jogaste...
E, já agora, leva a tua memória atrás, antes do 25 Abril, aos tempos de conspiração no "Café Benjamim" (por cima morava o chefe da PIDE, lembras-te?), no "Café Tamar", durante anos escritório do Zeca Afonso e ponto de encontro de antifascistas de coração aberto e solidários, posteriormente quase na sua totalidade absorvidos pelos partidos e moldados, hoje desaparecidos nas disciplinas partidárias... Mano, que saudades desses tempos, das conversas com o Velho, de assistir ao parto de poemas e de músicas contestatárias, e tudo na barba dos cabrões que diariamente cheiravam o ambiente, mas cujo cheiro nos alertava...

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Sei que vais falar do Circulo Cultural, prédio por mim ocupado logo na vaga gigante do 25 Abril, e do mundo lá criado. E de como era bom sentir a Cultura viva e polémica, todos os dias, todas as noites, a gritar, a estabelecer pontes, a dizer que sim, é possivel viver solidariamente e sem partidarites. Hoje é impossivel tal atitude, principalmente porque não interessa a muitos este saudável exemplo, além de alguns estarem condicionados totalmente à varinha mágica dos subsídios camarários e já não terem tempo nem inteligência (é a preguiça, estúpido!) para pensarem em alternativas, nem produzirem algo que justifique as ajudas... Neste campo, ocorre-me, ao correr da pena, tal como o nosso Circulo, o Teatro Infantil Espelho Mágico, cuja Directora é a nossa comum Amiga Céu Campos, por muitos estupidamente esquecido senão deliberadamente ignorado, é prova do que se pode fazer com muita entrega, muita imaginação, muita verdade, muito amor à Cultura e uma mão cheinha de bons amigos. Tal como o Circulo Cultural no passado, esta dinâmica forte e permamente ao longo do ano, peça a peça, parece incomodar muitos figurões...

No Circulo fizeram-se montes de coisas sem um vintém, apoiou-se grupos musicais e teatrais, organizaram-se aulas de pintura, de escultura, modelagem, exposições, debates, petiscadas culturalmente bem regadas, e ainda havia tempo para investir contra os sacanas reaccionários, distribuir propaganda e apoiar as lutas nas fábricas e nos bairros.

E fez-se o CANTAR JOSÉ AFONSO, a mais importante manifestação cultural e artística que Setúbal já teve, com a participação de cantores e artistas vindos de todo o mundo, graciosamente, relançou-se alguns que andavam um tanto esquecidos, deu-se visibilidade a outros menos conhecidos. E sempre se valorizou a "prata da casa". É pena alguns terem fraca memória! Claro que o CANTAR foi uma iniciativa saída da tua cabecinha poética, Victor Serra, que tiveste arte para mobilizar vontades e solidariedades e contornares alguns obstáculos. Penso que é um motivo de orgulho para ti e para os amigos que contigo colaboraram. No que me toca, ainda hoje sinto satisfação em ter desenhado os cartazes e pintado os cenários do evento que acompanhou o Circulo no desaparecimento ainda hoje envolto em muitas interrogações e em muita tristeza. 
Bom, já me alarguei. Não vou alongar-me mais. Só espero que o Ricardo, que certamente estava à espera de uma crónica saudavelmente crítica, perceba que a Amizade tem destas coisas e me dê hoje dispensa de tal tarefa. Até porque vou ficar sentado de sofá a ouvir atentamente a tua entrevista. E porque há muito não comento as entrevistas, vou, contigo, abrir uma excepção...

Um abraço para o auditório e para a equipa que semanalmente faz o Arestas de Vento, muito particularmente para o poeta palmelão José Gago.

Fernando Manuel Pereira

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