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PALAVRAS no VENTO
Assim como a maquilhagem pode, às vezes, fazer com que uma puta passe por uma mulher virtuosa, também a modéstia pode fazer um tolo parecer um homem de senso.

14/02/2009 GMT 0

O MEU PARENTE PROFESSOR

fmp @ 19:39

 

Há dias atrás, o secretário de Estado Valter Lemos, defendeu um projecto de despacho para o recrutamento de professores reformados como voluntários. Um familiar próximo, orgulhoso professor primário, cofiou a barbicha, quedou-se pensativo e momentos depois deixou escapar: “ Então o tipo atira-me para a reforma e agora quer batatinhas? Favores desses, nem ao S. Pedro!”

O descontentamento e o natural sentido crítico deste meu querido familiar, não se fica por aqui, nem aqui se esgota. Na passada quarta-feira, a selecção nacional, também conhecida por “selecção do Queiroz”, com um conjunto onde a inépcia dos jovens futebolistas que, de baliza aberta fizeram o colossal feito de falhar golos,  lá deu mais um triste espectáculo que provocou  alguma risota (valha-nos isso!) em quem assistiu ao encontro com a fraquinha Finlândia. Comentário ríspido do meu parente professor reformado: “Uma porcaria de jogo. Mas curti bué com a gesticulação do treinador, sentado no banco dos suplentes…)

Ontem, ligou-me logo pela manhã, eufórico, quase destrambelhado, danado. O seu partido, onde militou durante mais de vinte anos e do qual se afastou definitivamente  há cerca de três, tinha-lhe enviado uma carta a dar conhecimento da realização de um Congresso. O meu parente, homem avisado e de pé atrás, ainda com muitas feridas mal curadas e outras por curar, gritou-me: “Tas a ver a lata destes gajos? Lá vamos novamente levar com promessas, vamos fazer assim e assado, viva o povo, o povo é que manda e nós estamos ao serviço do povo, etc e tal. Tretas, só tretas, meu rapaz… ”

 Hoje apareceu-me cá em casa, livro debaixo do braço e um sorriso canhestro, ar um tanto misterioso, sapatos engraxados e unhas cortadas. “Onde vai, perguntei-lhe” – “Meu amigo”, disse-me ele, “vou nas calmarias à capital, bater-me com uma grande almoçarada, saber as novidades e aumentar com as minhas as críticas aos políticos saltimbancos”. E já de saída, deixou cair, apanhando-me desprevenido: ”E amanhã vou de certeza dar um salto ao Pinhal Novo, e ver a “Conquista de Lisboa aos Mouros”, no Auditório Municipal, estreia do Grupo de Teatro ATA”. E ainda teve tempo para acrescentar, gozão, quase altivo e um tanto vaidoso: “Isto, companheiro, é que é voluntariado! Também é voluntariado! Vou mais depressa ao Teatro do que na conversa “deles””.

E fiquei a pensar se ele não teria razão, muita razão… 

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FERNANDO MANUEL PEREIRA

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