CRÓNICA PARA UMA TARDE TARDIA
ENTRE ESTE MUNDO E UM OUTRO, MAIS VALE O PÁSSARO NA MÃO
.
Gurus espirituais, nunca tive, assim como sempre tive, tenho, dificuldade em dobrar a espinha. Talvez tenha uma costela de radical, nunca se sabe, não se vê. Algumas vezes sinto-me sozinho nas minhas convicções. Na minha já enviesada percepção, sempre me preocupou para onde vai o lixo, a sacanice, de maneira a que não suje os jardinzitos de flores de plástico, plantadas de estaca na encefálica massa, ainda assim, de alguns gajos, vegetantes de pocilgas e de salões participados. Enfunado numa mentalidade egoísta, deixem-me, façam favor, alimentar a luxúria a qualquer custo, não é preciso um génio para perceber que é insustentável este colapso, mentalmente escravizado, que me vai mudando as palavras, criando sombra por toda a parte, entre uma e outra parede, esquinas.

Reinvento com a sensibilidade de um arco-íris desfeito, uma forma criativa de viver meus, nossos dilemas. Usurpação de regras como expressão de liberdade, longe das montureiras visuais e sonoras que me tentam atafulhar a vida urbana, obrigando-me a ser dono de mim próprio, reminiscência de um paraíso ou local paradisíaco com um esquizofrénico de plantão a acentuar o difícil equilíbrio pirotécnico da ortografia, espécie de apêndice etéreo da minha memória menos oculta. Quero dizer, se um acontecimento fugaz e transitório me encaminhar liberto da estupidificação, para um território mais vasto, coerente e relevante pela raridade e avidez, como a existência da arte cristalizada na infância, sei que vou continuar vivo e verve, subitamente apaixonado pelos meus medos, mundo sólido sobre nuvens, antes dos meus primeiros passos, recorrendo das palavras em contínua construção.

Tendo em conta a forma contributiva, revestida de reflexos pausados, esta reflexão que partilho com quem não conheço, vocês e mais alguns, aponta numa direcção breve, que encaixa no objectivo heterogéneo elaborado, preexistente de leituras passadas, sem ninguém se dar conta do desdobramento inconstante da ascensão do espírito, estreita relação, por vezes agressiva, entre letras e telas pintadas, teclados e tintas. Configurar a paisagem, proclamar profetas ou aceitá-los, normativa que lentamente sufoca o grito que há em mim. Melancolicamente o silêncio me activa no distante instante possível de ser vivido. E é este, meus amigos, até aqueles que se fazem de amigos, o meu provável e único destino. Que aceito, com a vã glória de um dia ter escrito um poema só para mim.
Fernando Manuel Pereira/ Poeta/ Setubalense/ Blogues do autor:
http://sempreemluta.nireblog.com/ e http://etcetal.blogs.sapo.pt/

Do Melhor
Linkk
del.icio.us
............




