....25 ABRIL no ARESTAS DE VENTO
HOMENAGEAR ABRIL


O programa Arestas de Vento homenageia hoje o Dia da Liberdade. Junto-me ao intento e quero homenagear um homem corajoso e de princípios, contando publicamente um episódio antigo, comigo passado.
Estávamos em 1971 e Portugal vivia uma crise política progressiva, com o aumento da contestação a grassar no meio estudantil, alargada aos quadros permanentes das Forças Armadas, "semente" da revolta de Abril. O País travava uma guerra em três frentes: Angola, Moçambique e Guiné, com o seu macabro cortejo de mortos e estropiados. Não havia liberdade; na via pública três pessoas a conversar era uma reunião comunista. Havia a PIDE e os bufos. E outros, agora bem falantes e adubados, de queixo em riste, medrosamente recolhidos nas suas conchas, nas suas quimeras surrealistas…
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Pai solteiro e com um filho que pretendia baptizar, vi as portas de todas as igrejas de Setúbal serem-me fechadas. Todas, não! Houve uma que se me abriu: a situada na Praça de Bocage. Disse-me o padre: "E que culpa tem o bebé de vocês não serem casados? Venham às reuniões." E fomos. E o meu filho foi baptizado. Dois filhos do Zeca Afonso, o Pedro e a Joana, assistiram ao acto. Dias depois encontrei o Padre numa rua de Setúbal. " Ó senhor Padre, tenho aqui uma coisa que o senhor talvez gostasse de ler". E meti-lhe na mão um livro altamente proibido a que deu uma rápida olhadela e apressando-se a guardá-lo no interior do casaco. Era o "Julgamento dos Padres do Mácuti", que eu e o Zeca vendíamos, a maior parte das vezes dávamos.
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Contei ao Zeca Afonso o acontecido e logo ali disse-me que gostaria de conhecer esse padre. Passaram-se os meses e um dia, após termos tido uma inocente reunião com o Dr. Forreta, ex-representante de Humberto Delgado, disse-me o Zeca: "É, pá, e se eu fosse agora conhecer o padre do livro?" E lá fomos. Na sacristia, perguntámos pelo sacerdote e qual não é o nosso espanto quando uma senhora presente desata a chorar e, após alguma insistência, lá acabou por dizer que o "senhor padre já não é padre, casou!"

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Mais tarde soubemos que trabalhava na Setenave e continuava a acreditar em Deus e a rezar por todos os Seus filhos. A minha homenagem de Abril vai inteirinha para ele: obrigado Dr. Álvaro Quintas não só pela coragem, mas também pela firmeza de convicções e pela solidariedade cristã demonstrada e que sei continua a manter e a espalhar. A Caritas Diocesana de Setúbal pode orgulhar-se de contar com a colaboração de um homem bom como o senhor.
Que a liberdade seja sempre o caminho do futuro!
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Fernando Manuel Pereira/ Poeta/ Resistente/ Conviva de Zeca Afonso
Blogues do autor: http://sempreemluta.nireblog.com/ e http://etcetal.blogs.sapo.pt/

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