....DOMINGO, 3 FEVEREIRO, ARESTAS DE VENTO

PARA UNS, TUDO; PARA OUTROS NADA
Por vezes fico danado porque o Criador não me contemplou com dotes tais que me levassem a pisar um palco e representar com aceitável qualidade, ou cantar como parente próximo dos rouxinóis, ou, vá lá, ter o discurso fluído de um aprendiz de político. (Se bem que esta última hipótese não seja muito do meu agrado, mas enfim…)
Excepto farto e bem plantado bigode e pondo de lado alguma inclinação para moer a alma dos Amigos e uma certa teimosia em gostar de pintura e de poesia, sou branquinho noutras artes. Um branquinho caucasiano, sem jeito nem trambelho. Absolutamente virgem, mas com as quotas do Sporting em dia, diga-se de passagem e em abono da verdade. Ninguém é perfeito.
Por isso é que fico montanhas de vezes abismado como certas pessoas que conheço ou julgo conhecer há um ror de tempo explodem de surpresa como vulcão adormecido e, cantando ou representando, me causam natural admiração, olhos abertos de espanto e muita, mas mesmo muita inveja miudinha, não isenta de alguma suspeita dirigida a quem, lá no alto, controla esta coisa das artes e da sua distribuição individual. O amiguismo ou as cunhas devem fazer parte desta dança, desconfio. É sempre bom ter amigos lá onde se passeiam anjos e virgens e onde as águas são cristalinas, sem cocós e etares, não acham?
Muitos de vocês foram testemunhas do invulgar espectáculo que recheou o último Festival Infanto-Juvenil de Palmela, da celestial representação da peça "O Segredo de Rafael" e da excelência dos pequenos cantores que defenderam com garra as canções apuradas.
Digam-me lá, meus queridos amigos, não é de ter inveja desta rapaziada cheinha de coração e de sentimento que, sem outro lucro que não a sua própria participação e satisfação, nos concedeu um grande dia, dificilmente esquecido?
E o que dizer do malandro do meu Amigo Luís Filipe Estrela, contando as estrelas do seu até aqui escondido harém celestial, da esperta e lindíssima Raposa, cujo desempenho comovente "agarrou" a assistência, do Velho de barbas brancas e compridas, geólogo quase espiritual, do ingénuo e melodioso Acendedor de Luzes, da ternurenta e bonita Aviadora, do Rafael, melodioso, esperto, fantástico, cativante, com passo firme nos seus seis anos, conquistador de palco e de espectadores? E das outras personagens que propositadamente escondo para obrigar o ouvinte a desejar vê-las?
Então, digam-me lá, não é de ficar danado com quem faz a distribuição dos dotes? A mim nem sequer me tocou uma varinha mágica, que eu bem sabia para onde mandava ir o nosso querido e amado Sócrates!... Ó se sabia!!!
FERNANDO MANUEL PEREIRA
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