...ESCREVE TU O RESTO!
Mano Velho.
Frankly, I don't give a dame, isto é: francamente estou a borrifar-me. Porra, companheiro, tenho MAIS de meio século de existência, uma boa e saudável litragem de tintól, petiscagem a esmo, aberta, diversa, por vezes confusa e misturada. E aprendi, saudavelmente, a dizer merda e a fornicar de pé, ginasticamente, desde novo, novinho.
Ainda não havia currículos para mostrar e até se pagava para se aprender um ofício. Como vês, comecei a vestir calções, com alças, previdentemente, logo assim que acabei de mamar. As calças vieram um pouco depois, escola comercial à vista. Aprender a nadar foi logo a seguir, sem roupagem ou outro fardamento, a um canto do Clube Naval, nuínho, para grande alegria do meu Pai, que já me via a perseguir, em segurança líquida, os seus passos, madrugada no mar, tarde na tasca, nos copos, na miséria descalça, boca calada, o que era isso de política? quem somos nós para termos opiniões, eles que estão lá é que sabem! E sabiam-na toda, os cabrões.
É uma porra, esta de ter nascido no seio pobretanas de uma família numerosa de pescadores, ainda por cima "rabaques", uma espécie de varinos brazunados, com imagens do senhor dos mareantes, nossa senhora das dores, dependuradas nas paredes caiadas, onde nunca faltaram orações, terços rezados e onde o pão, que se vendia ao quilo, era comezaina vagarosa, racionada. Mas depressa, pela mão de minha avó materna, dei corda aos calcantes, pirei-me, depois de saber tios a morrerem no mar, em vã luta com as ondas, botas de água calçadas, pesadas, a nadarem como fateixas; pescador desse tempo, salvo raríssimas excepções, não sabia nadar. Mas nunca se esquecia do garrafão de cinco litros, na bagagem, tás a ver?...
Ninguém me tira estes aninhos. Nem as Amizades boas que pelos caminhos fiz. Desde o caraças do Pacheco, escritor resmunguento, com um pendor sentimental sobre o comunismo, passando pelo Reis pintor, premiado ao fim de muita insistência e de muita velhice, com uma casa de renda económica. Uma casa à portuguesa, concerteza.
Recordo a Amélia, desvirgem aparecida, génese teórica de uma estupenda galinha de cabidela, poetiza viúva e mal-tratada, sesimbrã, até a Zeca Afonso, lutador pela liberdade, militante da causa, de todas as causas culturais. E mais, muitos mais! Um dia, Ricardo, entre dois ou três copos, mostras-me os teus que eu te mostro os meus. Talvez com nomes diferentes, o conteúdo lá está, semelhante e irreverente, néctar de luta a esgrimir palavras, conceitos, valores, presença. As tais Amizades que perduram, por muito que a puta da Morte diga que não. Em vão.
Afinal, é verdade que a vida é uma grande escola e tem grandes professores. Mas é, também, uma caixa de Pandora, com zeladores que não passam de pirralhos que mijam de pé, camisas de vénus enfiadas na cabeça, à laia de cabeção de mula cagona. E há tantos por aí!...
Sabes que aprendi, mas ainda levei algum tempo, a distinguir entre um Amigo e um amigo? Agora já não me quilham! É o quilhas!!!
"No centro da avenida, no cruzamento da rua, às quatro em ponto perdida, dançava uma mulher nua... " Este é um magnífico verso do Zeca. E uma história de vida. De vidas. "Não há bandeira sem luta, nem luta sem batalha" - lá este ele a falar connosco, a incentivar-nos. Nem eu sei porque carga d'água me lembrei deste verso, precisamente agora, dia 9 de Novembro, 7 horas da tarde, sessenta e dois anos depois da 2ª guerra mundial acabar. Há coisas, ó Ricardo Couço Cardoso!... Serão mesmo coisas?
Vamos ficar por aqui, meu estimado Amigo. Daqui por um ano, voltamos a dar asas às lembranças. Ou será imaginação? Isto já anda tão misturado que por vezes não consigo separá-las. Olha, qualquer semelhança com a realidade... escreve tu o resto.
Um abraço.

Setúbal, a velha doca das Fontaínhas
Fernando Manuel Pereira/ Poeta/ Setubalense/ Blogues do autor: http://sempreemluta.nireblog.com/ e http://etcetal.blogs.sapo.pt/ e http://palavrasnovento.nireblog.com/

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