LUIZ PACHECO
Luíz Pacheco - O único que se salva é o Zeca Afonso que ele admirava e de quem nunca o ouvi dizer mal
Vê tu, Ricardo Amigo, que alugava para lhe emprestar livros policiais, rififis e merdas assim e o sacana a saber que os livros eram alugados, fazia anotações à margem, conhecia os autores portugueses que assinavam com nomes da estranja, americanizados, que o tipo por vezes escrevia amaricados, dizia ele que ia dar tudo ao mesmo, e eu é que tinha de entrar com o cacau para o dono do adelo, que se recusava a receber os livrecos escrevinhados, o caraças do Pacheco até chamava nomes e outras coisas normais aos editores, conhecia-os de ginjeira a todos, a quase todos já tinha mandado à merda e ficado a dever-lhes dinheiro, pouco, que a porcaria do escudo não dava para nada, o estupor da luz e da água atrasada e em dívida, a merda das cervejolas sabiam bem e faziam falta. Levou uma vida do camano!...
Ele saiu do lar onde fingia que vivia e está agora na casa de uma das filhas. Malcriado e resmungão, não vê, mas a porra da língua contundente e alarva, como sempre. Vão visitá-lo, acontecia no lar a que ele chamava espera encaixotada, e ele não se recorda das pessoas, por fingimento ou porque não lhe apetece. Ou por qualquer motivo muito dele, que o gajo é maluco, arroles, óculos como mapa-múndi, só o deixam ver o que o diabo consente, se consente, que a um libertino como o Pacheco é difícil impor regras.
Vê tu, Ricardo Amigo, que alugava para lhe emprestar livros policiais, rififis e merdas assim e o sacana a saber que os livros eram alugados, fazia anotações à margem, conhecia os autores portugueses que assinavam com nomes da estranja, americanizados, que o tipo por vezes escrevia amaricados, dizia ele que ia dar tudo ao mesmo, e eu é que tinha de entrar com o cacau para o dono do adelo, que se recusava a receber os livrecos escrevinhados, o caraças do Pacheco até chamava nomes e outras coisas normais aos editores, conhecia-os de ginjeira a todos, a quase todos já tinha mandado à merda e ficado a dever-lhes dinheiro, pouco, que a porcaria do escudo não dava para nada, o estupor da luz e da água atrasada e em dívida, a merda das cervejolas sabiam bem e faziam falta. Levou uma vida do camano!...
Sem dúvida um dos melhores escritores portugueses de todos os tempos. Carregado de "defeitos", carregado de palavras e de imaginação. E de dicionário e de cultura e de inimigos cultivados à revelia das mais elementares regras de civismo, dizia o gajo. E contava estórias incríveis passadas no velho café Gelo, paraíso de bichas em saldo e salteadas, com poetas e escritores e alguns pássaros bisnaus e parentes de moças estudadas ao relantim, Luíz (nunca esquecer o z é assim que tenho na cédula!) Pacheco era mais mal amado do que bem recebido. Sempre desconfiou que o Manaças escrevia mal dele no seu diário, levava o Paulocas filho ao Coliseu, Massamá onde morou era um apeadeiro, a Lena segundo ele considerava-o velho, viúvo, arrumado, apanascado, changer la vie, punhetas de manhã, a fome durante o dia, começava desintoxicações, sem o vinho afirmava-se sem lucidez, triste, velho e decadente. Era o gozar com ele próprio, a fazer amor com a pessoa que mais amava, que mais odiava: ele mesmo. Mas nunca se calou. E escrevia, traduzia, enganava, aproveitava dos outros os poucos dedos de testa, por vezes cravava na testa dos outros “enfeites pachecais”, bem embutidos.
Em Setúbal, Palmela, Lisboa, foram poucos os amigos que o visitaram, creio, e o gajo cheiinho de saudades de uma boa tertúlia, de um bom duelo de palavras, cheio de espertina, entretinha-se à noite a gravar coisas em cassetes já gravadas, atirava-se aos parvalhões pseudo intelectuais, poetas de pé quebrado, funileiros de rimas, alguns que nem sequer tropas foram, tenho comigo uma delas, incrivelmente lúcida, ofensiva, disparatada, que fala da porcaria do ambiente cultural na cidade de Bocage, neste engano e incompetência tão actuais hoje como na noite em que ele a gravou, já lá vão uns bons anitos, que o gajo também é vidente e o único que se salva é o Zeca Afonso que ele admirava e de quem nunca o ouvi falar mal... penso que era o único.
Deixá-lo estar onde está. É bem tratado, bem agasalhado, bem amparado até para mijar tem de ser auxiliado, é mimado, pois então. Mas continua irreverente, malcriado, esquisitamente inteligente e culto. Sóbrio e com senso, dizem-me. Luíz Pacheco, numa versão de bolso...
Fernando Manuel Pereira - Poeta

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