ZECA AFONSO, CANTOR DA REVOLUÇÃO
Fez no passado dia 23 de Fevereiro, 22 anos que José Afonso nos deixou. A data foi, mais uma vez, em Setúbal, assinalada com a tradicional homenagem e deslocação ao cemitério da Piedade, organizada pela Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, de Alhos Vedros, e coordenada pelo anti-fascista Leonel Coelho, com o apoio solidário da Escola José Afonso, Câmara Municipal da Moita e Junta de Freguesia de Alhos Vedros.
Zeca Afonso, o “Bicho-cantor” como era conhecido no Liceu, um dos maiores nomes de sempre da Música Portuguesa, cujas melodias e poemas atravessam as barreiras do tempo, considerado muito justamente como percursor da “World Music”, foi, mais do que um músico de excelência, um interventor político-social na conquista da liberdade, influenciando fortemente as gerações vindouras. As suas canções foram significativos contributos para a derrota do fascismo e implementação da democracia no nosso País. 
Zeca fez a sua vida entre África e vários pontos de Portugal. Viveu em Setúbal em cujo Liceu leccionou, durante 20 anos, os últimos em Azeitão. Na cidade do Sado fundou o mítico Circulo Cultural, reuniu “tropas” contra a ditadura, vendeu livros proibidos, cantou clandestinamente em tascas e em associações populares, distribuiu propaganda anti-regime e anti-guerra colonial, ensinou, conspirou, formou democratas, combateu, foi preso pela PIDE e aqui sofreu uma tentativa de assassinato, logo após 25 de Abril, testemunhada pelo autor destas letras, e levada a cabo por um idiota ressabiado e cobarde, muito chegado, na altura, a certos sectores da igreja mais reaccionária e fascista. Um Homem corajoso, frontal, contestatário aos poderes instituídos, naturalmente solidário e com um total desapego às coisas materiais, inconformado, um persistente buscador da utopia, continua presente na memória e no coração de grande parte dos portugueses. Em Setúbal, tenho a suspeita que há interesses políticos em não manter viva a chama da memória do Zeca: os sucessivos executivos socialistas, liderados por Mata Cáceres, nunca contribuíram nem sequer deram seguimento a qualquer iniciativa sobre Zeca Afonso. E esta falta de interesse obrigou, no passado, a Associação José Afonso a mudar para o Seixal o festival “Cantigas do Maio”. O comunista Carlos Sousa, ex-presidente despedido da autarquia sadina, chegou a reconhecer a necessidade de “celebrações condignas” em memória do cantor da revolução. Aliás, uma das suas promessas eleitorais foi a realização de um festival de música de intervenção – que nunca chegou a sair do papel… 
O actual executivo da câmara setubalense, de maioria CDU, pelos vistos, depois de, um ano, ter incluido o nome do Cantor na desterrada e feia feira das manteigadas, assobia para o lado e nem um simples ramo de flores se dignou mandar colocar na campa onde repousa um dos últimos homens livres. Quanto à comunicação social, (com excepção para o programa Arestas de Vento), local e nacional, não deram, e na maioria dos casos esqueceram, notícia da efeméride. A Associação José Afonso não assinala a data “porque é demasiado triste para os amigos”, no dizer de um ex-responsável.
Valha-nos a iniciativa da Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, de Alhos Vedros, a quem expresso solidariedade e compreensão, extensível à Câmara da Moita e à Junta de Freguesia de Alhos Vedros e à Escola José Afonso. Ainda bem que há quem, sem ser choramingas, se lembre desta data, transformando-a em dia de luta contra todas as ditaduras e pela liberdade dos povos, renovando, assim, a luta pela democracia!
FERNANDO MANUEL PEREIRA

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