Administra o teu Blog

Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis

PALAVRAS no VENTO
Assim como a maquilhagem pode, às vezes, fazer com que uma puta passe por uma mulher virtuosa, também a modéstia pode fazer um tolo parecer um homem de senso.

Arquivo: Fevereiro 2009

28/02/2009 GMT 0

ZECA AFONSO, CANTOR DA REVOLUÇÃO

fmp @ 21:49

Fez no passado dia 23 de Fevereiro, 22 anos que José Afonso nos deixou. A data foi, mais uma vez, em Setúbal, assinalada com a tradicional homenagem e deslocação ao cemitério da Piedade, organizada pela Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, de Alhos Vedros, e coordenada pelo anti-fascista Leonel Coelho, com o apoio solidário da Escola José Afonso, Câmara Municipal da Moita e Junta de Freguesia de Alhos Vedros.

 Zeca Afonso, o “Bicho-cantor” como era conhecido no Liceu, um dos maiores nomes de sempre da Música Portuguesa, cujas melodias e poemas atravessam as barreiras do tempo, considerado muito justamente como percursor da “World Music”, foi, mais do que um músico de excelência, um interventor político-social na conquista da liberdade, influenciando fortemente as gerações vindouras. As suas canções foram significativos contributos para a derrota do fascismo e implementação da democracia no nosso País.                           __za.jpg

Zeca fez a sua vida entre África e vários pontos de Portugal. Viveu em Setúbal em cujo Liceu leccionou, durante 20 anos, os últimos em Azeitão. Na cidade do Sado fundou o mítico Circulo Cultural, reuniu “tropas” contra a ditadura, vendeu livros proibidos, cantou clandestinamente em tascas e em associações populares, distribuiu propaganda anti-regime e anti-guerra colonial, ensinou, conspirou, formou democratas, combateu, foi preso pela PIDE e aqui sofreu uma tentativa de assassinato, logo após 25 de Abril, testemunhada pelo autor destas letras, e levada a cabo por um idiota ressabiado e cobarde, muito chegado, na altura, a certos sectores da igreja mais reaccionária e fascista. Um Homem corajoso, frontal, contestatário aos poderes instituídos, naturalmente solidário e com um total desapego às coisas materiais, inconformado, um persistente buscador da utopia, continua presente na memória e no coração de grande parte dos portugueses. Em Setúbal, tenho a suspeita que há interesses políticos em não manter viva a chama da memória do Zeca: os sucessivos executivos socialistas, liderados por Mata Cáceres, nunca contribuíram nem sequer deram seguimento a qualquer iniciativa sobre Zeca Afonso. E esta falta de interesse obrigou, no passado, a Associação José Afonso a mudar para o Seixal o festival “Cantigas do Maio”. O comunista Carlos Sousa, ex-presidente despedido da autarquia sadina, chegou a reconhecer a necessidade de “celebrações condignas” em memória do cantor da revolução. Aliás, uma das suas promessas eleitorais foi a realização de um festival de música de intervenção – que nunca chegou a sair do papel… joseafonso.jpg

O actual executivo da câmara setubalense, de maioria CDU, pelos vistos, depois de, um ano, ter  incluido o nome do Cantor na desterrada e feia feira das manteigadas, assobia para o lado e nem um simples ramo de flores se dignou mandar colocar na campa onde repousa um dos últimos homens livres. Quanto à comunicação social, (com excepção para o programa Arestas de Vento), local e nacional, não deram, e na maioria dos casos esqueceram, notícia da efeméride. A Associação José Afonso não assinala a data “porque é demasiado triste para os amigos”, no dizer de um ex-responsável.

Valha-nos a iniciativa da Academia Musical e Recreativa 8 de Janeiro, de Alhos Vedros, a quem expresso solidariedade e compreensão, extensível à Câmara da Moita e à Junta de Freguesia de Alhos Vedros e à Escola José Afonso. Ainda bem que há quem, sem ser choramingas, se lembre desta data, transformando-a em dia de luta contra todas as ditaduras e pela liberdade dos povos, renovando, assim, a luta pela democracia!

FERNANDO MANUEL PEREIRA

21/02/2009 GMT 0

CARTA AO VELHO AMIGO VICTOR SERRA

fmp @ 12:53

Pede-me o Ricardo alguns poemas meus para tu leres sem te engasgares, na próxima (boa) entrevista que o Arestas vai fazer navegar pelo éter. Não me deixes ficar mal e dar por mal empregue os tostões que contigo gastei durante anos a pagar-te o raio de centenas de bicas, (curtas e com espuma, recordas?), sempre na esperança de que te saísse a lotaria e que me compensasses. Mas como nunca jogaste...
E, já agora, leva a tua memória atrás, antes do 25 Abril, aos tempos de conspiração no "Café Benjamim" (por cima morava o chefe da PIDE, lembras-te?), no "Café Tamar", durante anos escritório do Zeca Afonso e ponto de encontro de antifascistas de coração aberto e solidários, posteriormente quase na sua totalidade absorvidos pelos partidos e moldados, hoje desaparecidos nas disciplinas partidárias... Mano, que saudades desses tempos, das conversas com o Velho, de assistir ao parto de poemas e de músicas contestatárias, e tudo na barba dos cabrões que diariamente cheiravam o ambiente, mas cujo cheiro nos alertava...

 .

 

.


Sei que vais falar do Circulo Cultural, prédio por mim ocupado logo na vaga gigante do 25 Abril, e do mundo lá criado. E de como era bom sentir a Cultura viva e polémica, todos os dias, todas as noites, a gritar, a estabelecer pontes, a dizer que sim, é possivel viver solidariamente e sem partidarites. Hoje é impossivel tal atitude, principalmente porque não interessa a muitos este saudável exemplo, além de alguns estarem condicionados totalmente à varinha mágica dos subsídios camarários e já não terem tempo nem inteligência (é a preguiça, estúpido!) para pensarem em alternativas, nem produzirem algo que justifique as ajudas... Neste campo, ocorre-me, ao correr da pena, tal como o nosso Circulo, o Teatro Infantil Espelho Mágico, cuja Directora é a nossa comum Amiga Céu Campos, por muitos estupidamente esquecido senão deliberadamente ignorado, é prova do que se pode fazer com muita entrega, muita imaginação, muita verdade, muito amor à Cultura e uma mão cheinha de bons amigos. Tal como o Circulo Cultural no passado, esta dinâmica forte e permamente ao longo do ano, peça a peça, parece incomodar muitos figurões...

No Circulo fizeram-se montes de coisas sem um vintém, apoiou-se grupos musicais e teatrais, organizaram-se aulas de pintura, de escultura, modelagem, exposições, debates, petiscadas culturalmente bem regadas, e ainda havia tempo para investir contra os sacanas reaccionários, distribuir propaganda e apoiar as lutas nas fábricas e nos bairros.

E fez-se o CANTAR JOSÉ AFONSO, a mais importante manifestação cultural e artística que Setúbal já teve, com a participação de cantores e artistas vindos de todo o mundo, graciosamente, relançou-se alguns que andavam um tanto esquecidos, deu-se visibilidade a outros menos conhecidos. E sempre se valorizou a "prata da casa". É pena alguns terem fraca memória! Claro que o CANTAR foi uma iniciativa saída da tua cabecinha poética, Victor Serra, que tiveste arte para mobilizar vontades e solidariedades e contornares alguns obstáculos. Penso que é um motivo de orgulho para ti e para os amigos que contigo colaboraram. No que me toca, ainda hoje sinto satisfação em ter desenhado os cartazes e pintado os cenários do evento que acompanhou o Circulo no desaparecimento ainda hoje envolto em muitas interrogações e em muita tristeza. 
Bom, já me alarguei. Não vou alongar-me mais. Só espero que o Ricardo, que certamente estava à espera de uma crónica saudavelmente crítica, perceba que a Amizade tem destas coisas e me dê hoje dispensa de tal tarefa. Até porque vou ficar sentado de sofá a ouvir atentamente a tua entrevista. E porque há muito não comento as entrevistas, vou, contigo, abrir uma excepção...

Um abraço para o auditório e para a equipa que semanalmente faz o Arestas de Vento, muito particularmente para o poeta palmelão José Gago.

Fernando Manuel Pereira

14/02/2009 GMT 0

O MEU PARENTE PROFESSOR

fmp @ 19:39

 

Há dias atrás, o secretário de Estado Valter Lemos, defendeu um projecto de despacho para o recrutamento de professores reformados como voluntários. Um familiar próximo, orgulhoso professor primário, cofiou a barbicha, quedou-se pensativo e momentos depois deixou escapar: “ Então o tipo atira-me para a reforma e agora quer batatinhas? Favores desses, nem ao S. Pedro!”

O descontentamento e o natural sentido crítico deste meu querido familiar, não se fica por aqui, nem aqui se esgota. Na passada quarta-feira, a selecção nacional, também conhecida por “selecção do Queiroz”, com um conjunto onde a inépcia dos jovens futebolistas que, de baliza aberta fizeram o colossal feito de falhar golos,  lá deu mais um triste espectáculo que provocou  alguma risota (valha-nos isso!) em quem assistiu ao encontro com a fraquinha Finlândia. Comentário ríspido do meu parente professor reformado: “Uma porcaria de jogo. Mas curti bué com a gesticulação do treinador, sentado no banco dos suplentes…)

Ontem, ligou-me logo pela manhã, eufórico, quase destrambelhado, danado. O seu partido, onde militou durante mais de vinte anos e do qual se afastou definitivamente  há cerca de três, tinha-lhe enviado uma carta a dar conhecimento da realização de um Congresso. O meu parente, homem avisado e de pé atrás, ainda com muitas feridas mal curadas e outras por curar, gritou-me: “Tas a ver a lata destes gajos? Lá vamos novamente levar com promessas, vamos fazer assim e assado, viva o povo, o povo é que manda e nós estamos ao serviço do povo, etc e tal. Tretas, só tretas, meu rapaz… ”

 Hoje apareceu-me cá em casa, livro debaixo do braço e um sorriso canhestro, ar um tanto misterioso, sapatos engraxados e unhas cortadas. “Onde vai, perguntei-lhe” – “Meu amigo”, disse-me ele, “vou nas calmarias à capital, bater-me com uma grande almoçarada, saber as novidades e aumentar com as minhas as críticas aos políticos saltimbancos”. E já de saída, deixou cair, apanhando-me desprevenido: ”E amanhã vou de certeza dar um salto ao Pinhal Novo, e ver a “Conquista de Lisboa aos Mouros”, no Auditório Municipal, estreia do Grupo de Teatro ATA”. E ainda teve tempo para acrescentar, gozão, quase altivo e um tanto vaidoso: “Isto, companheiro, é que é voluntariado! Também é voluntariado! Vou mais depressa ao Teatro do que na conversa “deles””.

E fiquei a pensar se ele não teria razão, muita razão… 

.

FERNANDO MANUEL PEREIRA

08/02/2009 GMT 0

OIÇA A CRÓNICA DE FERNANDO MANUEL PEREIRA DITA PELO RADIALISTA RICARDO CARDOSO

fmp @ 20:16

07/02/2009 GMT 0

HOJE QUERO FALAR DO LUÍZ PACHECO

fmp @ 23:52

 

 luizpacheco.png    

 

 

No passado dia 5 de Janeiro, fez um ano que a voz e a pena de Luiz Pacheco, um escritor que se ria da morte e era considerado maldito, inconveniente, alarve, polémico e outras coisas que não me apetece agora disser, se calou para sempre. O genial Pacheco viveu e trabalhou (e riu, e engatou, e gozou, e escreveu, e fez amigos e inimigos, e criticou, e barafustou, e embebedou-se…) em Setúbal, cidade que o podia ter tratado melhor…Conheci-o assim que assentou por cá arraiais, amores e misérias, era um gajo de quem não se gostava logo à primeira vista, já comunista na altura, culto e um tanto asacanado, língua afiada, conhecia todas as estrelas, incluindo as cadentes, da nossa praça, nacional e local. E não gostava muito delas. Tal como eu…

Do Luiz tenho (e partilho a posse com mais dois amigos) há uma mancheia de anos uma velha cassete onde vivem as suas nocturnas reflexões sobre a fraqueza do movimento cultural e político na cidade do Sado, com nomes e casos, arrasa tudo e todos, chama os bois pelos nomes e muitos nomes feios aos bois. Um documento forte, muito duro, muito acusatório. Uma pedrada no charco de uma sociedade provinciana de sapatos engraxados e de solas rotas, onde os vaidosos e chulecos culturais, no seu entender, não se livram de muitos açoites e reprimendas, principalmente os falsos democratas, outrora delfins da União Nacional fascista, “um criado ao dispor de Vossa Excelência”, os cobardolas situacionistas, invejosos e parasitas, que tentavam, após o 25 de Abril, dar abastada barrela a passado muito comprometedor. E ainda vegetam por cá alguns…

 

 

luizpachecoliteraturacomestivel.jpg

Por curiosa coincidência, a pessoa que entregou ao Luiz Pacheco a ficha para se inscrever no partido comunista, é hoje entrevistado neste programa. José Casanova, um comunista interventivo, é escritor e considerado senhor de uma escrita transgressora, de corrosivo humor, prosa ficcional vestida de real e de dignidade pelo ser humano. Foi precisamente este escritor que, na despedida do Luiz fez um discurso que não foi discurso, e acabou assim: “Para além do que aqui disse, para além de tudo o que aqui não disse – porque ele não quereria que o dissesse – fica a imensa saudade que o Luiz Pacheco deixa em todos nós. Saudade do amigo. Saudade do camarada. Saudade do escritor. Saudade do Luiz Pacheco exactamente como ele era. Uma saudade que, de algum modo, podemos ir matando…lendo-o.” Sugestão a que acrescento uma recomendação para os caros ouvintes: ler o Luiz Pacheco e o José Casa Nova aplaca a nossa fome de sonho e cuida da nossa sanidade mental.

Arquivo | Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis