CARLOS CÉSAR
Um alentejano que escolheu Setúbal, estávamos em 1975, ainda se respirava, e bem, a revolução de Abril, e os sonhos, de braço dado com a utopia, faziam também desta cidade a sua cidade, tal qual o actor Carlos César fez. Conheci-o por essas alturas, mais tas, menos tas, era um gajo culto, inteligente e diligente, já com uma certa notabilidade, com gostos apimentados pela vida, perseguidor de caminhos que já o tinham empurrado para o Teatro Trindade, onde se estreou como actor, fazia, na época, figura na Companhia de Teatro D'Arte, de Lisboa, e também para Paris, em 1964, onde aguentou dez anos.
.Conheci-o por intermédio de um sujeito pseudo-actor, pequenino e de falas mansas, rabeta de fim-de-semana, raquete zinguezagueante na cultura citadina, enfeitado de intelectual e de músico, numa tasca de bifanas e de copos de tinto, numa tarde pachorrenta, pendurada entre a manhã e a noite. Falámos de pintura, de poesia, de passarinhos fritos em banha, do assalto democrático à Pide e à Legião Portuguesa, das calças à boca de sino, de música e, agora sim, bingo!, de Zeca Afonso. Inevitavelmente. Não ficámos amigos, nem deixámos de ficar. Éramos dois conhecidos, por vezes cúmplices quando nos víamos em bares não muito recomendáveis, assim para o rasqueiroso urbano, e foi num destes bares de bebedeiras certas depois da meia-noite que descobri que o Carlos César também era poeta. Poeta de escrever poesia. Era um segredo que guardava bem guardadinho, talvez o único segredo que tinha, os outros eram visíveis e menos importantes, não eram segredos.

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Contou-me ele que tinha fundado, no regresso à Pátria, o Grupo de Teatro Oficina Português e de entre o seu colar de peças encenadas, tinha estima por uma pérola, um texto várias vezes censurado, de Luís de Sttau Monteiro, "Felizmente há Luar", levado pela sua mão e pela primeira vez aos palcos. E falava disto com prazer e gozo, gozo autêntico, sem água ou outra mistela a adulterar.
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Durante os 25 anos que dirigiu o Teatro de Animação de Setúbal este homem da cultura e dos prazeres, autor, encenador, actor, autarca, soube fazer amigos e conseguiu formar uma geração de novos artistas, tendo tido uma relevante actividade na descentralização cultural e na reedificação do teatro na cidade de Setúbal. Tinha uma grande capacidade de conviver e tornou-se uma personalidade estimada na cidade e na região e nos meios culturais ao longo do País, o que não evitou algumas invejas de meia dúzia de papalvos com umbigos tamanho de um punico, mas que se apressaram a virar as agulhas após a sua morte. As críticas manhosas e as censuras de retrete deram lugar aos elogios e às avé-marias graciosas. É a roda, como diria um amigo meu.
Nada mais natural e justo do que a homenagem que hoje o Programa Arestas de Vento prestou ao Homem e ao Actor Carlos César, setubalense por opção da mente e do coração. Condição que eu gostaria de ver em muitos naturais da minha cidade do rio Sado.
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Fernando Manuel Pereira/ Setubalense/ Conviva de Zeca Afonso e Luiz Pacheco
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EM FOCO/ EMISSÃO/ 25 DE MAIO :

HOMENAGEM ao saudoso actor CARLOS CÉSAR (na foto)
E GRANDE ENTREVISTA AO
Dr RICARDO MARTINEZ , homem sem papas na língua/, Campeão na arte da solidariedade, Sociológo por convicção.
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PARA UMA MAIOR CONSCIÊNCIA DE TODOS
Ricardo Cardoso
As tuas entrevistas também têm o mérito, tipo chave, que nos abre a gaveta da memória, puxam, provocam recordações de leituras antigas, armazenadas. "As leis para os pobres, de certo modo, criam os pobres que mantém" (Malthus). Cá tivemos um homem da velha guarda, socialista e solidário que, sem devaneios ou outros tiques, apontou o dedo, entre outras causas, a esta sociedade de consumo, apressada e enganosa, a este governo socialista (sem formação marxista, digo eu) que muito tem favorecido as desigualdades sociais. Pesa a injustiça do sistema capitalista actual, neo-capitalista, dirão os mais atentos. Nega-se o pão, nega-se, na prática, a liberdade.
Ricardo Martinez disse palavras duras, não escondeu verdades ásperas, sem mistificações, em benefício deste presente incerto e futuro acinzentado, com uma réstia de esperança no horizonte, que ele acalenta e alimenta, sem desvios ou desfalecimentos. Uma questão de equilíbrio…
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Afinal, para que acreditar em destino, na existência de uma poderosa força, imutável, influente, que nos rege e ao mundo? Será tudo isto uma treta, de que já tudo está escrito e destinado a acontecer? Martinez responde com um labor nobre, envidando todo o esforço, estendendo a mão, com amor e dedicação, a todos que necessitam de amparo, não se ficando por uma retalhada mensagem de solidariedade, entra no concreto, no verdadeiro campo de batalha, consciente da necessidade de se adoptarem acções urgentes para enfrentar o problema da fome, da marginalidade, da exclusão, da ausência de amor, deixando em cima da mesa, para reflexão, a integração, enquanto projecto indispensável ao desenvolvimento harmonioso da pessoa humana. E é, inequivocamente, contra a tal caridadezinha, solidariedade às avessas, quase como um insulto aos necessitados, que não abranda a fome nem a revolta. Denuncia os falsos e equivocados conceitos de caridade que alguns trazem na lapela, como flor, como emblema ou como corneta ruidosa. Cada cor, seu paladar…
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Deixou no auditório a convicção de que é o inverso do pseudo herói; trabalha a favor do próximo, tem boa vontade, é, socialmente, um fazedor de coisas para os outros. E mais importante: não usa o sofrimento alheio como mercadoria…
Esperamos que o regresso do Professor Ricardo Martinez aos estúdios da Rádio PAL, programa ARESTAS DE VENTO, seja breve, pelo muito que ficou por dizer, pelo muito que há para dizer!
Companheiro Ricardo, natural da mui combativa vila do COUÇO, radialista sempre em primeiras núpcias, quero agradecer-te teres passado no programa de hoje, alguns poemas da minha autoria, lidos, e bem, pelo nosso amigo Vítor Serra.
Um abraço.
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Fernando Manuel Pereira/ Poeta/ Setubalense/ Amigo de Palmela/ Blogues do autor: http://sempreemluta.nireblog.com/ e http://etcetal.blogs.sapo.pt/ e