...SÓ DE IDA

Numa apressada vista de olhos por um jornal diário, embati no título "Rosa parecia a cor do pesadelo". E saltou-me o pensamento, desaustinado: querem lá ver que o nosso amado 1º Ministro deu à sola, seguindo o salutar exemplo do camarada Guterres e do Barroso? Mas não, era talvez mais grave. O Benfica, o clube que tem mais associados que todos os nacionais partidos políticos juntos, tinha conseguido evitar humilhante derrota com um adversário de fraco nível, Nuremberga de seu nome, a equipa mais fraca da Bundesliga. A coisa tinha ficado por um empate, permitindo que o nosso rosa Benfica seguisse em frente na Taça UEFA. A notícia não referia se houve no ar estralejar de foguetes e quem apanhou as canas. Talvez isso seja estória de outro campeonato…
Um pouco mais à frente, novo título sugestivamente combativo: "Nunca desistimos de lutar". Olálá, agora é que fia mais fino, pensei eu, ainda não escaldado. Temos greves, lutas operárias, reivindicações de fato macaco, funcionários públicos de punho esquerdo erguido… Mas não, ainda cheirava a rosas, era o Camacho treinador, benfiquista a prazo, a falar todo ufano por ter conseguido passar a vala do inferno e ter entrado no purgatório dos quartos-de-final, com uma equipa espanhola à vista. (A fazer fé no velhinho ditado, "de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos"… Mas enfim, estes treinadores, modernos Obélixes do pontapé na bola, é que sabem).

Ainda no mesmo jornal, numa página de número impar, o garrafal título "Cinco rumam ao espaço", deixou-me com água na boca, vivamente expectante, mas, mesmo assim, numa defensiva dormente; desta vez é que é, temos acção e altíssima acção, arrisquei. Muito certamente, Sócrates, Menezes, Marcelo, Santana, Portas, juntaram-se em cacho, numa grande pândega, e foram pregar para os extraterrestres. Puro engano. Era simplesmente a falar de um voo experimental da "SpaceShip Two, para o qual cinco modestos cidadãos portugueses, previdentemente, já tinham comprado bilhete, garantindo uma viagem para onde as nuvens fazem ninho. Fiquei, acreditem, verdadeiramente decepcionado e a bater mal, muito por culpa da minha ingenuidade incorrigível. Por favor, não se riam de mim. Dêem desconto à minha idade e culpas à incerteza destes incertos tempos, que também ajudou na credulidade. Mas digam lá, meus amigos: com base no conhecimento que temos dos políticos da nossa rectangular praça, esta excursão ao espaço podia muito bem acontecer, não podia? Eu até era capaz de empenhar a minha reforma durante cem anos, ou mais, para ter o prazer de lhes oferecer um bilhetinho… só de ida!
Muitos sonhos e muita força para lutar!
FERNANDO MANUEL PEREIRA

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